"Ship e sheep: as vogais do inglês que o brasileiro troca sem perceber"

Por Alex Barros, intérprete simultâneo há 25 anos · atualizado em

Resumo: O inglês americano distingue pares de vogais que o português trata como uma só: /ɪ/ e /i/ (ship e sheep), /ʊ/ e /u/ (full e fool), /æ/ e /ɛ/ (bad e bed). O brasileiro tende a levar os dois membros de cada par para a vogal portuguesa mais próxima, e o resultado são palavras diferentes soando iguais. Este guia explica cada par, mostra como a boca muda, lista pares mínimos e propõe um treino de ouvido e de boca.

"Ship" e "sheep" é o exemplo clássico, e por um bom motivo. A diferença entre as duas palavras é uma vogal, e é uma diferença que o ouvido do brasileiro, treinado em português, não registra sozinho. Para o ouvinte americano, são palavras distintas, sem ambiguidade. Para o brasileiro que as pronuncia igual, o contexto precisa fazer o trabalho que o som deixou de fazer.

Na maior parte do tempo, o contexto dá conta. Mas nem sempre. E há um custo menos visível: quem não ouve a diferença entre /ɪ/ e /i/ também não a ouve quando o outro fala, e isso gera dúvidas sobre o que foi dito, principalmente em reuniões e chamadas, onde não dá para pedir que o outro repita três vezes.

Este guia trata de três pares de vogais, os que mais pesam para o brasileiro. Nada aqui é decoreba. Cada par tem uma explicação mecânica, e é pela mecânica que se aprende.

Por que o português não ajuda aqui

Em sílaba tônica, o português brasileiro tem sete vogais orais: a, é, ê, i, ó, ô, u. O inglês americano tem mais vogais do que isso, e várias delas ficam entre as vogais do português, sem coincidir com nenhuma.

Quando o brasileiro encontra uma vogal inglesa que não existe no seu repertório, o cérebro faz o que faz com qualquer som desconhecido: escolhe a vogal portuguesa mais próxima e usa. É um processo automático, e não tem relação com inteligência ou com tempo de estudo. Pessoas com anos de inglês fazem isso o tempo todo.

Os três pares deste guia são exatamente os casos em que esse processo causa mais confusão:

Par Palavras de exemplo O que o brasileiro costuma fazer
/ɪ/ e /i/ ship e sheep usa o "i" do português nos dois
/ʊ/ e /u/ full e fool usa o "u" do português nos dois
/æ/ e /ɛ/ bad e bed usa o "é" do português nos dois

O padrão se repete: dois sons do inglês viram um som do português. Para consertar, é preciso primeiro ouvir a diferença, depois sentir o que a boca faz de diferente, e só então produzir.

Tensa e frouxa: o que isso quer dizer

Você vai encontrar os termos "vogais tensas" e "vogais frouxas" em livros de pronúncia. São rótulos tradicionais, em inglês "tense" e "lax". Não precisam ser levados ao pé da letra, mas dão uma boa ideia do que distingue os dois membros dos dois primeiros pares.

A vogal tensa (como em "sheep" e "fool") é feita com a língua mais alta e os músculos mais firmes, tende a ser mais longa e, no inglês americano, costuma terminar com um leve deslizamento: "sheep" encerra com um toque do som de Y, e "fool" com um toque do som de W.

A vogal frouxa (como em "ship" e "full") é feita com a boca mais relaxada, a língua um pouco mais baixa, e é curta, sem deslizamento no final.

Na prática, três pistas separam os dois tipos: a posição da língua e dos lábios, a duração e a tensão muscular. Nenhuma delas funciona sozinha. Quem tenta resolver só pela duração acaba esticando "sheep" artificialmente e deixando a qualidade da vogal igual. O treino precisa envolver as três.

Par 1: ship e sheep (/ɪ/ e /i/)

Este é o par mais famoso, e o que mais aparece em fala cotidiana.

/i/, como em "sheep": lábios levemente esticados, como num sorriso discreto, língua alta e à frente da boca, vogal longa. É o "i" do português, mas mais firme e mais comprido.

/ɪ/, como em "ship": lábios soltos, sem sorriso, língua um pouco mais baixa e mais recuada que no /i/, vogal curta. Não existe em português. O som fica entre o "i" e o "é", mas é mais próximo do "i".

Pares mínimos úteis, em que só a vogal muda:

Frouxa /ɪ/ Tensa /i/
ship sheep
live (verbo) leave
sit seat
bit beat
fill feel
it eat
hill heel
chip cheap
lip leap

Dois alertas sobre este par.

O primeiro é sobre "live". Como verbo, é /lɪv/, como em "Where do you live?". Como adjetivo, em "live music" ou "live broadcast", é outra palavra, com outra vogal, que soa como "laiv". Quando eu digo que "live" e "leave" formam um par mínimo, falo do verbo.

O segundo é sobre o constrangimento. Alguns pares deste tipo, quando trocados, produzem palavras que ninguém quer dizer por engano numa reunião. "Beach" e "bitch" é o caso mais conhecido. "Sheet" e a palavra de quatro letras que difere só pela vogal é outro. Não vou transformar isso em motivo de medo: o contexto quase sempre salva. Mas é uma razão prática para treinar o par.

Como o brasileiro erra

O erro típico é pronunciar "ship" como "sheep", com o /i/ longo e esticado, de modo que "ship" soa como "sheep". É a direção mais comum: a vogal frouxa sobe e fica tensa.

Existe também um erro menos óbvio, que é o de sobrecorreção. Quem aprendeu que há duas vogais às vezes passa a usar a frouxa em toda parte, inclusive onde o inglês pede a tensa. Aí "feel" sai como "fill" e "eat" como "it". O objetivo é distinguir, não trocar um defeito por outro.

Par 2: full e fool (/ʊ/ e /u/)

O princípio é o mesmo do par anterior, aplicado às vogais de trás da boca.

/u/, como em "fool": lábios bem arredondados e projetados para a frente, língua alta e recuada, vogal longa, com um leve deslizamento final em direção ao som de W. É parecido com o "u" do português.

/ʊ/, como em "full": lábios menos arredondados, mais relaxados, língua um pouco mais baixa e mais à frente que no /u/, vogal curta. Não existe em português. O som fica entre o "u" e o "ó", e é mais próximo do "u".

Pares mínimos:

Frouxa /ʊ/ Tensa /u/
full fool
pull pool
look Luke
could cooed

"Luke" é nome próprio, mas serve bem ao par. A lista de pares com esta vogal é mais curta do que a do par anterior, o que reflete a língua: há menos palavras em que a troca muda o significado. Mesmo assim, "full" e "fool" valem o treino, porque "I'm full" e "I'm a fool" são frases comuns, com sentidos que ninguém quer trocar.

Também vale notar que /ʊ/ aparece em palavras muito frequentes: "good", "book", "put", "should", "would", "could", "look", "took". Quem pronuncia "good" com um /u/ longo e arredondado soa estrangeiro em frases simples, mesmo que o significado fique claro.

Como o brasileiro erra

O erro é o mesmo do par anterior: a vogal frouxa vira tensa. "Good" soa como "gûd" com um "u" longo, e "book" como "bûk". É um erro compreensível, porque o "u" do português está na fronteira dos dois sons ingleses.

Existe ainda o par "put" e "putt" (uma tacada curta de golfe), em que a segunda palavra tem outra vogal, /ʌ/. É um par menos frequente e não vou me estender nele.

Par 3: bad e bed (/æ/ e /ɛ/)

Este é o par em que o brasileiro mais confunde palavras com significados muito diferentes, e o que mais causa dúvidas em reuniões.

/ɛ/, como em "bed": boca meio aberta, língua na altura média. É muito parecido com o "é" do português, como em "pé". Para este som, o brasileiro costuma acertar.

/æ/, como em "bad": mandíbula mais baixa, boca mais aberta, lábios levemente esticados, língua baixa e à frente. Não existe em português. O som fica entre o "é" e o "á", e é mais aberto que o "é".

Uma dica prática, aproximada: comece com o "é" de "pé" e abra a mandíbula um pouco mais, sem recuar a língua. O resultado se aproxima do /æ/. Confirme com o áudio.

Pares mínimos:

/ɛ/ /æ/
bed bad
men man
pen pan
set sat
beg bag
head had
lend land

Como o brasileiro erra

O brasileiro leva o /æ/ para o "é". Então "bad" e "bed" ficam iguais, "man" e "men" ficam iguais, "pan" e "pen" ficam iguais. A frase "The bed is bad" soa como "the béd is béd".

Há um erro secundário, de quem percebe que o /æ/ é aberto e vai ao "a" do português. "Bad" sai como "bád", com um "a" aberto e posterior, que também não é o som certo. É uma tentativa melhor do que a primeira, mas ainda longe.

Uma ressalva sobre pin e pen

Em partes do sul dos Estados Unidos, os sons /ɪ/ e /ɛ/ se fundem antes de consoante nasal, de modo que "pin" e "pen" soam iguais para esses falantes. É um traço regional, conhecido dos linguistas. Não é o padrão do inglês americano em geral e não afeta o treino deste guia. Menciono para que, se você ouvir isso em um falante do Sul, não pense que o seu ouvido treinado está falhando.

O comprimento da vogal e a consoante que vem depois

Há um fator adicional que ajuda o ouvido: em inglês, a vogal é mais longa antes de uma consoante sonora do que antes de uma consoante surda.

Vogal mais curta (consoante final surda) Vogal mais longa (consoante final sonora)
bat bad
leaf leave
beat bead
back bag

O comprimento acompanha a consoante que vem depois, e não a palavra em si. Esse comprimento se soma à qualidade da vogal. Em "bad", a vogal é aberta e longa. Em "bat", é aberta e mais curta. Em "leave", a vogal é tensa e longa. Em "leaf", é tensa e mais curta.

É por esse motivo que o T final preso, tratado no guia sobre o T no fim das palavras, não atrapalha a compreensão: o ouvinte nativo reconhece a palavra pela vogal e pelo seu comprimento, mesmo que o T seja quase inaudível.

Por que isso importa

Para ser entendido. Na maioria das conversas, o contexto resolve. Mas há frases em que a troca de vogal muda o sentido, e pessoas que não conhecem você bem, ou que estão em uma ligação ruim, não têm paciência de decifrar. Algumas frases:

  1. "I live here." e "I leave here." significam coisas distintas.
  2. "Please fill the form." e "Please feel the form." Uma é pedido de rotina, outra é estranha.
  3. "It's a bad idea." e "It's a bed idea." A segunda não faz sentido, e o ouvinte vai tentar adivinhar.
  4. "I'm full." e "I'm a fool." Neste caso as palavras vêm com artigos diferentes, o que ajuda, mas a vogal faz parte do trabalho.

Para entender. O ganho maior está do lado do ouvido. Quem distingue /ɪ/ de /i/ e /æ/ de /ɛ/ ao ouvir passa a captar a palavra certa, em vez de depender de adivinhação. Na cabine, vogais são um dos pontos em que mais vejo a dúvida se instalar entre o que foi dito e o que foi entendido.

Para soar natural. As vogais estão entre os fatores que mais marcam o sotaque. Elas ocupam o centro de cada sílaba, e ajustá-las traz ganho de naturalidade que vai além dos pares mínimos.

Como treinar: ouvido primeiro

A ordem importa. Quem tenta produzir antes de distinguir acaba fixando o erro. O caminho que recomendo tem duas partes: ouvido e depois boca.

Passo 1: discriminação

Ouça um par mínimo, de um falante nativo: "ship", "sheep". Repita o par três vezes, só ouvindo. Pergunte a si mesmo: as duas palavras soam diferentes? Se não, volte e ouça de novo, concentrando-se na duração e na sensação de tensão da vogal.

Passo 2: identificação

Peça a outra pessoa, ou use um áudio embaralhado, para tocar uma das duas palavras do par sem dizer qual. Você diz qual era. Faça trinta tentativas. Meça a taxa de acerto: se ficar em torno de 50%, você está chutando. Quanto mais acima disso, mais firme o ouvido.

Passo 3: contexto

Repita o exercício com frases curtas, em que a palavra aparece numa posição natural: "Where do you live?" e "When do you leave?". O ouvido precisa reconhecer a vogal em fluxo, e não só em palavras soltas.

Como treinar: boca depois

Passo 4: o espelho

Diante de um espelho, diga "sheep" e depois "ship". Observe os lábios. Em "sheep" você deve ver um sorriso discreto; em "ship", os lábios soltos. Em "fool" você deve ver os lábios projetados; em "full", mais relaxados. Em "bad" você deve ver a mandíbula descer mais do que em "bed".

Passo 5: o contraste exagerado

Para sentir a diferença, exagere um pouco no começo: faça o /i/ bem tenso e comprido, e o /ɪ/ bem solto e curto. Depois reduza o exagero até chegar a algo natural. O exagero inicial ajuda a boca a mapear os dois pontos.

Passo 6: grave e compare

Grave a si mesmo dizendo os pares e compare com um áudio de referência. Concentre-se numa comparação por vez: primeiro o par /ɪ/ e /i/, depois os outros. Tentar corrigir tudo ao mesmo tempo atrapalha.

Passo 7: frases

Use frases em que os dois sons do par aparecem, para treinar o contraste dentro do mesmo fluxo:

  1. "The ship is full of sheep."
  2. "Is this seat taken?"
  3. "I can't sit in that seat."
  4. "Where do you live, and when do you leave?"
  5. "It's a good book, and the food is good."
  6. "The bed is not bad."
  7. "I'm full, but I'm not a fool."
  8. "I had a bad headache."
  9. "Look at the pool, Luke."
  10. "Fill it up, and feel the difference."

A frase 1 é artificial de propósito, para concentrar os sons: serve ao treino, não é algo que alguém diria. Em cada uma, repita quatro vezes: ouça, repita, ouça, repita. Uma vez por semana, grave e compare.

Erros comuns

  1. Esticar só a duração. "Sheep" não é "ship" mais comprido. A qualidade da vogal também muda.
  2. Arredondar demais o /ʊ/. "Full" com lábios de "fool" apaga a diferença.
  3. Levar o /æ/ para o "é". "Bad" e "bed" ficam iguais.
  4. Sobrecorrigir. Trocar todas as vogais por frouxas, ou todas por tensas. O objetivo é distinguir.
  5. Treinar só palavras soltas. Os pares precisam ser testados em frases, onde a vogal perde parte da duração.
  6. Querer resolver tudo de uma vez. Escolha um par e fique nele até o ouvido firmar.

Para onde ir daqui

A Pronúncia Inglespetacular tem 10 unidades e 1.900 exercícios de repetição com áudio de referência, do nível A1 ao B2, e trabalha as vogais com os mesmos princípios deste guia: som isolado, palavra, frase e fala conectada. A Introdução e a Unidade 1 são grátis.

Para treinar por conta própria, escolha um dos três pares e fique nele por uma semana. Depois leia o guia sobre o T no final das palavras, o guia sobre a fusão de sons em "did you", e o guia sobre a rotina de 15 minutos por dia.

Eu escrevo e reviso. Se encontrar algo errado, avise.

Perguntas frequentes

Preciso distinguir ship e sheep para ser entendido?

Na maioria das conversas, o contexto resolve. Mas quem distingue é mais bem entendido em ligações ruins, em ambientes barulhentos e com pessoas que não conhecem você.

O que são vogais tensas e frouxas?

São rótulos tradicionais para dois grupos de vogais do inglês. As tensas (como /i/ e /u/) são feitas com a língua mais alta e firme, e são mais longas. As frouxas (como /ɪ/ e /ʊ/) são mais relaxadas e curtas.

Por que o brasileiro troca bad por bed?

Porque o português não tem o /æ/, e o cérebro escolhe a vogal portuguesa mais próxima, que é o "é".

Isso vale para o inglês britânico?

Os pares /ɪ/ e /i/, e /ʊ/ e /u/, existem também no inglês britânico. Este guia trata do inglês americano e não detalha as diferenças.

Quanto tempo leva para distinguir esses pares?

Não tenho um prazo a oferecer, porque depende de cada pessoa. O que posso dizer é que o treino de ouvido vem primeiro, e que o áudio de referência é o ponto de apoio para comparar.

Por que "live" tem duas pronúncias?

Porque são duas palavras diferentes com a mesma grafia. O verbo ("Where do you live?") tem a vogal frouxa. O adjetivo ("live music") tem outra vogal, parecida com "laiv".

Comece pela Unidade 1, de graça

A Introdução e a Unidade 1 de cada curso são grátis, com cadastro. Se não souber seu nível, faça o teste antes.

Para treinar isso

Continue lendo