Anki para inglês: como usar e criar cartões que funcionam

Por Alex Barros, intérprete simultâneo há 25 anos · atualizado em

Resumo: O Anki é um aplicativo de cartões de memorização que decide sozinho quando você deve rever cada cartão. Para inglês, ele funciona bem quando o cartão traz uma frase inteira, com áudio, e cobra uma única ideia. Funciona mal com palavras soltas, cartões longos e coleções enormes que ninguém revisa. Ele guarda o que você já viu, mas não ensina nada do zero e não treina a fala. Por isso rende mais ao lado de um curso.

Trabalho como intérprete simultâneo há 25 anos. Na minha profissão, memória é ferramenta de trabalho. Antes de uma reunião de banco ou de uma conferência, preciso ter à mão vocabulário técnico em duas línguas, e não posso consultar glossário no meio da fala. Por isso testei, ao longo dos anos, vários métodos de memorização, e conheço bem o que o Anki faz de útil e o que ele não faz.

Este texto é para quem já ouviu falar do Anki, quem baixou e abandonou, ou quem está começando e quer evitar os erros mais comuns. Vou explicar o que ele é, como montar cartões que valem a pena, onde as pessoas erram, qual rotina cabe na semana e como encaixar o Anki num estudo mais amplo. Não há truque aqui. Há um método simples que exige regularidade.

O que é o Anki

O Anki é um programa de flashcards, ou seja, cartões com uma pergunta de um lado e a resposta do outro. Existe para computador e para celular. Você cria os cartões, junta em baralhos (decks) e o programa mostra um cartão de cada vez. Você tenta lembrar a resposta, vira o cartão e diz ao programa como foi.

A diferença em relação ao flashcard de papel está no agendamento. O Anki usa o que se chama de repetição espaçada. Quando você acerta um cartão com facilidade, ele só volta depois de um intervalo maior: alguns dias, depois semanas, depois meses. Quando você erra ou acerta com dificuldade, ele volta logo. O programa ajusta o intervalo de cada cartão separadamente, com base nas suas respostas.

A ideia por trás disso é antiga e bem conhecida na psicologia da memória: lembrar de algo logo antes de esquecê-lo fortalece a memória mais do que reler várias vezes seguidas. O Anki automatiza esse cálculo, que ninguém conseguiria fazer à mão para centenas de cartões. Se você quiser entender melhor a lógica, escrevi um guia só sobre repetição espaçada. Aqui o foco é o uso prático.

Depois de ver o cartão, você escolhe um dos botões de resposta. Nas versões atuais são quatro: de novo, difícil, bom e fácil. Cada botão afeta o intervalo até a próxima revisão. A regra honesta é: se você lembrou sem esforço, "bom" ou "fácil"; se lembrou com dificuldade, "difícil"; se não lembrou, "de novo". A tentação é apertar "bom" para a sessão acabar logo. Isso estraga o agendamento, porque o programa passa a achar que você sabe o que não sabe.

Dois pontos sobre o que o Anki é e não é:

Essa segunda observação parece óbvia, mas explica boa parte dos abandonos. Muita gente baixa o programa esperando que ele ensine inglês. Ele guarda, com eficiência, o que você colocar dentro.

Por que o Anki funciona para inglês, e onde ele não alcança

Aprender uma língua tem pelo menos duas partes. A primeira é encontrar material novo: ouvir, ler, estudar uma explicação. A segunda é reter o que se encontrou, para que a próxima conversa não comece do zero. O Anki ataca a segunda parte.

Para inglês, ele ajuda especialmente em:

Ele não resolve, por si só:

Dito isso, para quem já tem uma base mínima, o Anki costuma ser uma das formas de estudo com melhor retorno por minuto. O motivo é simples: ele elimina a revisão desnecessária do que você já sabe e concentra o tempo no que está prestes a ser esquecido.

Como criar um bom cartão de inglês

A qualidade dos cartões decide quase tudo. Um baralho bem feito dá prazer de revisar. Um mal feito vira tarefa e é abandonado em duas semanas. Três princípios resolvem a maior parte do problema.

Princípio 1: frase em contexto, não palavra solta

O erro mais comum é criar cartões com a palavra em inglês de um lado e a tradução do outro. Por exemplo: "deadline" de um lado e "prazo final" do outro. Parece eficiente. Na prática, tem três problemas.

Primeiro, a palavra solta não diz como ela se comporta. Você aprende que "deadline" é "prazo final", mas não aprende que se diz "meet a deadline", "miss a deadline", "the deadline is Friday". Na hora de falar, o que importa é o conjunto.

Segundo, muitas palavras têm vários sentidos. "Right" pode ser "certo", "direita" ou "direito". Sem frase, o cartão ensina uma tradução e esconde as outras.

Terceiro, a tradução palavra por palavra reforça o hábito de traduzir mentalmente, que é uma das causas de travamento na fala. Já escrevi sobre isso em outro texto deste blog.

A alternativa é pôr a palavra dentro de uma frase curta e natural. Em vez de "deadline", um cartão assim:

Ou, no formato mais simples, a frase inteira no verso e a situação no lado da pergunta. O ponto é que o cérebro guarde o conjunto: a palavra e o ambiente onde ela vive.

Uma frase boa para cartão tem as seguintes características:

Princípio 2: uma ideia por cartão

Cada cartão deve cobrar uma única coisa. Se o cartão exige que você lembre três palavras novas e uma regra de gramática, qualquer erro deixa você sem saber qual das quatro falhou. E o agendamento do Anki se perde, porque ele trata o cartão como uma unidade só.

Compare dois cartões:

O benefício aparece na revisão. Um cartão simples leva cinco segundos. Você responde, o programa registra e a sessão flui. Cartões densos levam vinte segundos, geram dúvida e cansam.

Um teste rápido: se, ao errar o cartão, você não consegue dizer exatamente o que errou, o cartão tem ideias demais.

Princípio 3: áudio sempre que possível

Inglês é uma língua falada antes de ser escrita, e a ortografia inglesa engana. "Though", "through", "tough" e "cough" terminam do mesmo jeito e soam diferentes. Um cartão só de texto ensina a ver a palavra. Quem estuda para falar e entender precisa também do som.

Há duas formas práticas de ter áudio:

  1. Gravar você mesmo. Grave a frase em voz alta e anexe ao cartão. Tem a vantagem de obrigar você a falar, mas só serve se você já souber como a frase soa. Gravar com a pronúncia errada fixa o erro.
  2. Usar áudio de fonte confiável. Dicionários online costumam trazer áudio de palavras isoladas. Para frases, vale usar áudio de um material que você já tenha acesso e possa usar para estudo pessoal. Fique atento aos direitos de uso do material, principalmente se pretende compartilhar o baralho.

Uma boa prática é inverter a direção em parte dos cartões. Em alguns, o áudio é a pergunta: você ouve a frase e tenta entender e escrever ou traduzir. Em outros, a pergunta é a situação em português e a resposta é a frase dita em voz alta por você, que depois confere com o áudio. Isso exige que você realmente fale, ainda que baixinho, e não só reconheça.

Cartões de lacuna (cloze)

O Anki tem um tipo de cartão chamado cloze, que esconde uma parte da frase. É o formato mais útil para inglês. Você escreve a frase inteira e marca o que quer esconder:

I {{c1::usually}} get to work at eight.

Na revisão, o cartão mostra "I [...] get to work at eight" e você diz a palavra que falta. A frase fica inteira na memória, com a palavra no lugar certo. Esse formato resolve de uma vez os princípios 1 e 2, porque o contexto está sempre presente e cada lacuna é uma ideia.

Algumas lacunas bem escolhidas:

Evite esconder a frase inteira. Uma lacuna que cobre tudo vira um cartão de tradução disfarçado.

Os erros que mais derrubam quem usa Anki

Vi muita gente começar animada e parar. Os motivos se repetem.

Cartões longos. Parágrafos inteiros, listas de dez itens, tabelas de conjugação. Cada cartão assim gera uma revisão pesada, e a pilha de revisões cresce mais rápido do que você aguenta. Se o cartão não cabe em uma olhada, quebre em partes.

Palavras soltas. Já falei, mas vale repetir, porque é o erro número um. A coleção de "palavra e tradução" dá a sensação de progresso e rende pouco na fala.

Baixar baralhos prontos sem critério. Existem baralhos compartilhados com milhares de cartões. Alguns são bons. Muitos têm traduções erradas, frases estranhas ou vocabulário de nível que não é o seu. O problema maior é outro: um cartão que você não criou nem encontrou em contexto tem menos ligação com a sua vida. Lembra-se melhor do que se tem uma história por trás. Se usar baralho pronto, leia antes e apague o que estiver errado ou fora do seu nível.

Criar cartões demais de uma vez. Quem passa um fim de semana criando 500 cartões cria também uma dívida. Em poucos dias, cada cartão novo vira revisões, e as revisões se acumulam. O Anki tem um limite diário de cartões novos justamente para isso. Mantenha esse limite baixo, entre 10 e 20 por dia, e ajuste conforme a sua realidade.

Apertar "bom" sem ter lembrado. Mencionei acima. Se você mente para o programa, ele agenda errado, e o resultado é uma sensação de que o método não funciona. Seja honesto nos botões.

Parar por alguns dias e depois voltar. Esse é o erro que mais assusta, porque as revisões se acumulam. Voltar depois de uma semana e encontrar 300 revisões desanima. A saída é fazer uma volta gradual: faça uma parte por dia, sem criar cartões novos até zerar a pilha. Não apague o baralho por frustração.

Estudar só no Anki. Quem faz só cartões acaba com bom reconhecimento e pouca fluência. Voltarei a isso mais abaixo.

Cartões sem uso real. Se uma frase nunca vai ser útil para você, ela não deveria estar no baralho. O vocabulário de um advogado é diferente do de um engenheiro, e o de quem viaja é diferente do de quem trabalha com exportação. Crie cartões a partir do que você precisa dizer.

Onde buscar o conteúdo dos cartões

A fonte mais valiosa é a sua própria experiência. Algumas ideias:

Evite copiar listas inteiras de "as 1000 palavras mais comuns" para dentro do Anki. A lista serve de orientação, mas as palavras que você vai reter melhor são as que apareceram na sua vida.

Uma observação sobre o seu tempo: criar o cartão é parte do estudo. Escrever a frase, escolher a lacuna, pensar no que cobrar, tudo isso já fixa parte do conteúdo. Por isso, pagar para ter os cartões prontos tira parte do benefício.

Uma rotina que cabe na semana

O Anki funciona pela regularidade. Dez minutos por dia dão mais resultado do que uma hora aos sábados, porque o agendamento pressupõe contato frequente. Uma estrutura possível:

Todos os dias, de 10 a 15 minutos:

  1. Faça as revisões do dia. Elas vêm primeiro, sempre. Revisão atrasada é o que faz o sistema desabar.
  2. Adicione de 5 a 10 cartões novos, só se as revisões estiverem sob controle.
  3. Em pelo menos parte dos cartões, fale a resposta em voz alta antes de virar.

Uma vez por semana, 15 minutos:

  1. Reveja os cartões que você mais erra. O Anki permite filtrar por cartões difíceis. Se o mesmo cartão volta toda hora, reescreva-o. Quase sempre o problema é o cartão, que está confuso ou denso demais.
  2. Apague cartões inúteis. Um baralho enxuto é mais agradável de manter.

Hábitos que ajudam:

Quanto ao tamanho do baralho, não existe número certo. O que importa é a carga diária de revisões ser sustentável. Se ela passa de 30 ou 40 minutos por dia e você está cansado, reduza os cartões novos. Um sistema que você mantém por meses vale mais do que um sistema ambicioso que dura duas semanas.

Não vou prometer quanto vocabulário você terá em tantos meses, porque isso depende do que você cria, de como revisa e do quanto você usa a língua fora do Anki. O que posso afirmar é que o método retém o que você coloca nele, desde que você volte todos os dias.

Como combinar o Anki com um curso

O Anki é uma camada de revisão. Ele rende mais quando existe algo alimentando-o e algo completando-o.

O curso alimenta. Um curso estruturado apresenta o conteúdo em ordem: vocabulário, estruturas, situações. Em cada lição, você encontra frases novas. As melhores viram cartões, e as demais ficam na lição. Assim você não precisa decidir sozinho o que estudar, e o seu baralho cresce de forma coerente, em vez de ser uma coleção aleatória.

A prática de fala completa. Aqui está a limitação do Anki. Revisar cartões mantém o conteúdo disponível, mas a fala exige produção em voz alta, em ritmo de conversa. Um curso de prática de fala, ou um parceiro de conversa, faz esse trabalho. O fluxo ideal é: aprender no curso, reter com o Anki, produzir com a prática de fala.

Uma sequência semanal razoável, com 30 a 40 minutos por dia, seria:

Na Inglespetacular, os dois cursos se dividem assim. O Journey ensina o conteúdo, em unidades com áudio, e nos níveis A1 e A2 traz as explicações em português. Cada nível tem 10 unidades e 100 lições. O Speak treina a fala, com 750 linhas por nível, em formato de situação, pergunta e resposta em voz alta. Uso o Journey como fonte de frases e o Speak como lugar de produzir, e o Anki como a camada de retenção entre os dois. Este texto não trata de exportar conteúdo do curso para o Anki. Os cartões que recomendo aqui você cria a partir das suas anotações, e fazer isso é parte do método.

A Introdução e a Unidade 1 de cada curso são grátis. Cada curso tem o preço informado na página dele. Se você ainda não sabe se o formato serve para você, comece pelo conteúdo grátis, anote as frases que achar úteis e monte seus primeiros dez cartões com elas. É um bom teste dos dois lados: do curso e do seu hábito de revisar.

Anki e os níveis de inglês

O Anki serve em qualquer nível, mas o que você coloca nele muda.

No iniciante (A1 e A2). O foco são frases curtas e prontas: apresentar-se, pedir algo, perguntar o preço, dizer as horas. Cartões de lacuna com verbos básicos e preposições. Áudio é essencial, porque a pronúncia ainda está se formando. Cuidado para não copiar frases cujo sentido você não entende.

No intermediário. Entram expressões compostas, phrasal verbs em contexto e frases de trabalho. É a fase em que o vocabulário cresce mais rápido, e também a fase em que mais gente se perde com cartões demais. Mantenha o limite de novos.

No avançado. Os cartões passam a cobrar nuances: colocações, registros formais e informais, termos técnicos da sua área. O Anki serve bem como glossário pessoal, como faço antes de eventos.

Em todos os níveis vale a mesma regra: o cartão nasce de algo que você encontrou ou precisou, e não de uma lista alheia.

Alternativas e limites

O Anki não é a única ferramenta de repetição espaçada, e não é para todo mundo. Algumas pessoas preferem aplicativos mais simples, outras gostam de caderno de revisão. O princípio importa mais do que o programa: rever em intervalos crescentes, com cartões bons.

Também reconheço um limite. O Anki exige disciplina e tem uma interface que pode parecer pouco amigável no início. Se você tentou duas vezes e parou, talvez o formato não combine com você, e tudo bem. O que não funciona é ficar fingindo que revisa. Se o Anki não cabe na sua rotina, uma revisão semanal das frases anotadas, feita em voz alta, já ajuda.

Para onde ir daqui

Se você quer testar o Anki, comece pequeno: crie 10 cartões de lacuna com frases que você realmente usaria, grave o áudio de cada um e faça as revisões durante uma semana. Depois ajuste o que não funcionou.

Se você ainda está montando a base, o Journey apresenta o conteúdo em ordem e, nos níveis A1 e A2, explica em português. A Introdução e a Unidade 1 são grátis em /cursos/journey/, e dá para tirar dali as frases dos seus primeiros cartões. Para treinar a fala em voz alta, com 750 linhas por nível, veja o Speak. Se não souber por qual nível começar, faça o teste de nivelamento.

Eu escrevo e reviso. Se encontrar algo errado, avise.

Perguntas frequentes

O Anki é gratuito?

O programa para computador é gratuito. Os aplicativos de celular variam conforme o sistema. Confira na loja do seu aparelho antes de decidir, porque as condições podem mudar.

Posso aprender inglês só com o Anki?

Não. O Anki retém o que você já encontrou, mas não ensina conteúdo novo na ordem certa, não corrige a sua fala e não treina a escuta de conversas reais. Ele funciona bem como parte de um estudo maior.

Quantos cartões novos devo criar por dia?

Entre 5 e 20, conforme o tempo que você tem. O limite certo é o que deixa a carga de revisão sustentável. É melhor começar com pouco e aumentar do que o contrário.

Devo usar baralhos prontos?

Com cuidado. Leia os cartões antes, apague os que estiverem errados ou fora do seu nível. Cartões que você mesmo cria costumam render mais, porque têm ligação com o que você viveu.

Cartão de tradução ou cartão só em inglês?

Para o iniciante, uma pista em português na frente é aceitável. À medida que você avança, prefira pistas em inglês: uma frase com lacuna, uma imagem, uma definição simples. Isso reduz a tradução mental.

O que fazer quando acumulo muitas revisões?

Pare de criar cartões novos e faça uma parte das revisões por dia até regularizar. Não apague o baralho. Se o acúmulo se repete, o limite de cartões novos está alto demais.

Anki serve para melhorar a pronúncia?

Em parte. Com áudio nos cartões e o hábito de repetir em voz alta, ele ajuda a fixar sons de palavras específicas. Para trabalhar ritmo e entonação, é preciso uma prática de fala própria.

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A Introdução e a Unidade 1 de cada curso são grátis, com cadastro. Se não souber seu nível, faça o teste antes.

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